
Discípulo de Victor Meirelles, Eliseu nasceu na Itália, mas veio para o Brasil em meados de 1874, sua família se instalou no Rio de Janeiro. Começou seus estudos na famosa Academia Imperial de Belas Artes.
Decidi escrever este post porque a Pinacoteca de São Paulo está com uma exposição em cartaz sobre Visconti somente até o dia 26.02.12. Mas, quem conhece Eliseu Visconti? Grande pintor, desconhecido do grande público… Recentemente, em 2009, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro estava em reforma e, pasmem: encontraram um painel gigante de Eliseu escondido atrás de uma parede! O que seria motivo de grande alegria para nós, se transformou em uma vergonha, pois a direção do teatro declarou que para retirar a obra dali, desembolsariam um bom dinheiro e esqueceram desta história. Agora, vemos em todo canto, na TV aberta, um “oba-oba” para Tarsila do Amaral, se fosse um quadro assinado por ela ou Portinari, com certeza esse quadro já teria sido resgatado há tempos. Eliseu ficou fora da semana de 22. Ele não fazia parte do grupo dos modernistas, assim como muitos outros pintores daquela época foram esquecidos, ou até mesmo nomeados de antiquados por se apoiarem no neoclássico. O que as pessoas não lembram é que entre estes pintores “excluídos”, surgiram muitos pintores de qualidade, que produziam obras belas e desenvolviam ideias novas.
Eliseu Visconti introduziu o design no Brasil. Este artista participou da transição do Brasil Imperial para o Brasil Moderno, foi ele quem iniciou o trabalho de desenho aplicado nas indústrias e nas artes gráficas, produziu cartazes, estamparias, papeis de parede.
Acho digna a posição da Pinacoteca do Estado de São Paulo dar este espaço para as obras de Eliseu (já que sua última retrospectiva foi feita somente em 1949) , com um título sensacional: “Eliseu Visconti – a modernidade antecipada”. São cerca de 250 trabalhos expostos e é uma oportunidade única para o grande público conhecer um pouco mais sobre este artista e lembrar que existe muita arte boa na década de 20 além da Semana de Arte Moderna.
Curadoria: Mirian Seraphin.
http://www.pinacoteca.org.br/pinacoteca/default.aspx?c=exposicoes&idexp=596&mn=100
Pinacoteca do Estado de São Paulo - Praça da Luz, 2 São Paulo, SP – Tel. 55 11 3324-1000
Próximo ao metrô Luz.
R$6,00. Grátis aos sábados.
Carybé, apesar de amar a cultura brasileira, nasceu na Argentina em 1911, na cidade de Lanús, quando criança foi morar na Itália, onde foi alfabetizado. Nos anos 20 ele veio para o Brasil, estudou no Rio de Janeiro (Belas Artes) e depois disto morou em diversos países. Somente em 1950 veio morar na Bahia definitivamente, na cidade de Salvador. Passou quase 50 anos de sua vida na capital baiana. Retratou a cultura regional, como a capoeira, candomblé e o samba de roda.
Carybé experimentou a aquarela, escultura, cerâmica e a ilustração. Uma de suas obras mais conhecidas é o conjunto de painéis “Os povos afros”, os “Ibéricos” e “Libertadores” de 1988. Estão expostos no Memorial da América Latina,em São Paulo(vale a pena conferir).
O artista fez ilustrações para livros de grandes escritores, como Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez , Macunaíma, de Mário de Andrade e diversas capas para Jorge Amado, que era seu amigo íntimo.
Este grande artista faleceu em 1997 na cidade de Salvador, contribuiu muito ao retratar a nossa cultura e nos ajudou na construção de nossa memória cultural.
Fundação Memorial da América Latina
Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664
01156-001 – Barra Funda – São Paulo SP
Os irmãos Campana, nascidos no interior de SP (Humberto em Rio Claro e Fernando em Brotas), são reconhecidos mundialmente pelos seus trabalhos de design. Utilizam diversos materias, sendo eles comuns, desvalorizados ou reciclados, desta forma, fazem peças artísticas únicas. Eles também buscam referências na cultura popular brasileira, viajam muito pelo Brasil e criam objetos que causam identificação.
A Exposição Anticorpos reúne trabalhos feitos de 1989 a 2009, inclusive a famosa cadeira vermelha, que tomou projeção mundial e hoje integra a coleção do MoMA, em NY.
A exposição no CCBB ocupa os 3 andares, ainda traz a biografia dos irmãos, filmes e fotos. Fica em cartaz até o dia 15/01/2012.
Curadoria: Mathias Schwartz-Clauss.
CCBB SP Rua Álvares Penteado, 112 – Centro - Próximo à estação Sé do metrô.
Terça a domingo, das 9h às 21h
Entrada grátis.
O que dançar? Como dançar? Para quem dançar?
Este é o lema do Ballet Stagium, o grupo que completou quatro décadas de trabalho ganha uma ocupação no Itaú Cultural. Visitei esta semana e me encantei com a montagem, de muito bom gosto e completamente moderna. Logo na entrada, encontramos diversas imagens de jornais com notícias de espetáculos e prêmios acumulados ao longo destes 40 anos de estrada. Também há um vídeo imensamente interessante, contendo os depoimentos de Ademar Guerra e Paulo Autran. Seguindo adiante na ocupação, nos deparamos com um ônibus contendo telas para todos os lados, podemos visualizar as imagens das viagens que a cia fez pelo Brasil. Não poderia haver ideia melhor para mostrar este feito incrível do Ballet, viajar levando cultura e arte na forma de dança aos quatro cantos de nosso país. Além disto, as diversas televisões espalhadas pela ocupação mostram ensaios, entrevistas e apresentações. Tudo isso com muita música brasileira ao fundo. Sim, ballet com música brasileira! Também podemos observar alguns figurinos de espetáculos e muitas fotos.
O grupo foi fundado em 1971 pelo casal Marika Galdi e Décio Otelo. Uma época extremamente conturbada em nosso país, tendo em vista a vigência da Ditadura Militar (1964-1985), que censurou diversas obras artísticas produzidas durante o regime, além de ter exilado, torturado e perseguido vários artistas, intelectuais e aqueles que se demonstravam conta o regime, desta forma, podando e vetando a liberdade de expressão. É neste contexto tenso que o Ballet Staguim se desenvolve, em parceria com o diretor Ademar Guerra (fundamental na história do grupo), juntos trabalham os temas racismo, opressão, violência e preconceitos. Inovam transferindo o foco para o Brasil, utilizando em sua dança nossas raízes, usam a música brasileira, pura inspiração na cultura popular – alguns exemplos são os espetáculos Adoniran, Que Saudade, Elis! (figurino na exposição) e Stagium dança Chico Buarque. Além disto, foram os primeiros a lutar por verba pública e privada para a dança, tiveram o apoio de Vera Lafer nos anos 90 e depois da Varig, o que ajudou muito nas viagens e divulgação. Não é errôneo dizermos que todos os profissionais que trabalham com dança devem, de alguma maneira, ao Ballet Stagium, pois eles abriram caminho e tornaram possível um ballet brasileiro, mestiço.
Uma galeria de fotos de autoria do fotógrafo Emídio Luisi, que registrou grande parte dos espetáculos do Stagium ao longo dos anos, mostra imagens dos bailarinos em cena, muitas vezes desafiando os limites do corpo e da gravidade. Um infográfico, especialmente concebido para este momento, pretende mostrar com palavras e conceitos a enorme teia de referências que compõe o processo criativo da companhia e reitera a influência que o grupo exerceu sobre o que foi e ainda é feito atualmente na dança brasileira.
Também o filho do casal, Edgard Duprat (que já foi bailarino pela cia), registrou diversos espetáculos, ensaios e viagens, através da fotografia e filmagens.
Este grupo de dança (que não se separa do teatro), fez apresentações em locais radicalmente diferentes, entre eles escolas públicas, favelas, hospitais, metrôs, praias e presídios. Também viajaram a outros países, espalhando brasilidade. Além disto, estão engajados em projetos sociais, muitos disponíveis neste link.
A cia funciona até hoje sob o comando do casal Marika Galdi e Décio Otelo, a sede continua na Rua Augusta, 2985 – São Paulo, SP – visite o site.
O site da exposição é muito bacana e dá para ter uma ideia de como está. Acesse: http://www.itaucultural.org.br/ocupacao/
Vale a pena conferir a exposição e conhecer um pouco mais sobre este grupo e, ao mesmo tempo, sobre a história brasileira.
A exposição tem curadoria de Edgard Duprat, Carlos Gardin e Pedro Markun.
Está em cartaz no Itaú Cultural:
Av. Paulista, 149 – São Paulo, SP (próximo à estação Brigadeiro do metrô).
Até 22/01/2012- Terça a sexta 9h às 20h. Sábado, domingo e feriado 11h às 20h – GRÁTIS
Farnese de Andrade nasceu no ano de 1926 em Minas Gerais, mudou-se para a capital fluminense nos anos 50 – onde criou a maior parte de sua obra. Faleceu no Rio de Janeiro em 1996. Foi um multiartista, pintava, ilustrava, desenhava.
Andrade criou muitas obras com materiais de antiquários, também utilizou materiais inusitados, como peças descartadas que coletava nas praias e aterros do RJ, objetos comprados em feiras, bolas de vidro e conchas . Seus objetos são notavelmente autobiográficos, muitos elementos recorrem à infância, pais e filhos são temas constantes. Vendo deste ponto de vista, sua obra afeta a todos, pois são temas essencialmente sentimentais, universais, apesar de sua excentricidade.
O uso dos oratórios me chamou atenção, Farnese usa oratórios fazendo composições com brinquedos antigos, como bonecas distorcidas, carrinhos, também usa fotografias e colagens, transformando os oratórios em obras singulares e marcantes. Arte que causa identificação.
Em 2005 o Centro Cultural Banco do Brasil nos presenteou com a exposição Farnese: Objetos, com a curadoria de Charles Cosac (que conviveu com o artista nos últimos anos de sua vida), havia cerca de 126 peças em uma diversidade de criação.
Infelizmente, este artista ainda é pouco conhecido, talvez por não ter desenvolvido uma carreira comercial de êxito, entretanto, o CCBB esteve de parabéns ao montar esta exposição, não podemos permitir que talentos como este sejam esquecidos, é importante manter nossa memória cultural viva.